sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A simbiose entre forças e fraquezas

Foto: Cena do filme Sybil, remake de 2007. O papel da jovem Sybil, com 16 personalidades distintas, foi interpretado com excelência pela atriz Tammy Blanchard (à direita) e da analista Dra. Cornelia Wilbur pela atriz Jessica Lange (à esquerda) .

Segue logo abaixo um trecho bíblico e uma letra de música. Mais logo abaixo irei correlacionar os dois mais a foto acima com a proposta que tenho para relatar no texto de hoje.


"Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte." 2 Coríntios 12:10


Apenas Mais Uma de Amor - Lulu Santos

Eu gosto tanto de você
Que até prefiro esconder
Deixo assim ficar
Subentendido

Como uma idéia que existe na cabeça
E não tem a menor obrigação de acontecer

Eu acho tão bonito isso
De ser abstrato, baby
A beleza é mesmo tão fugaz

É uma idéia que existe na cabeça
E não tem a menor pretensão de acontecer

Pode até parecer fraqueza
Pois que seja fraqueza então,
A alegria que me dá
Isso vai sem eu dizer

Se amanhã não for nada disso
Caberá só a mim esquecer
O que eu ganho, o que eu perco
Ninguém precisa saber

Eu gosto tanto de você
Que até prefiro esconder
Deixo assim ficar
Subentendido

Como uma idéia que existe na cabeça
E não tem a menor pretensão de acontecer

Pode até parecer fraqueza
Pois que seja fraqueza então,
A alegria que me dá
Isso vai sem eu dizer

Se amanhã não for nada disso
Caberá só a mim esquecer
E eu vou sobreviver...
O que eu ganho, o que eu perco
Ninguém precisa saber



#-#-# (In) Blurry Oblivion #-#-#



Refleti a seguinte frase de uma canção por agora: "e o pra sempre, sempre acaba...", do grande gênio Renato Russo. Com todo o respeito que tenho a ele e aos seguidores desta frase irei fazer a seguinte argumentação: será que acaba mesmo?

Nós nascemos, crescemos, reproduzimos e morremos... Aquele "mantra" que todos aprendemos nas aulas de Ciências no ensino fundamental. Na verdade alguns não crescem e outros não se reproduzem, mas isso seria tema para outro texto. Dentro desta frase, está subentendida uma complexidade de propostas. Como assim? Pois bem, o que há, o que cabe no existir de cada ser humano neste intervalo nascer-crescer-reproduzir-morrer? Sendo mais clara, o que há nesses tracinhos, quais são os seus conteúdos? Alegrias, tristezas, sofrimentos, vitórias, doenças, neuroses, psicoses, mentiras, amigos, amores, cumplicidade, traição? E eu ficaria o resto de Minha Vida escrevendo mais e mais conteúdos, mas já foi o bastante até então.

Bom, no filme Sybil, foi relatado uma história verídica sobre uma jovem que sofria com 16 personalidades totalmente diferentes dentro seu Ser-real, ou seja, dentro dela mesma. Todas personalidades eram baseadas em suas histórias de Vida, algumas vinham para proteger o Ser-real de Sybil, outras desabrochavam os mais reprimidos sentimentos da mesma. E, o mais curioso, cada personalidade tem o seu próprio nome, a sua própria identidade.

Ainda sobre o filme, Sybil nunca se lembra quando uma e outra personalidade vinha à tona. Quando o seu Ser-real retornava novamente, ela tem um surto, uma amnésia e nunca se lembra do que ocorreu anteriormente, quando alguma personalidade ocupava si mesma. A jovem Sybil conviveu com isso durante toda a sua Vida. Sim, em seu para sempre.

A Vida é um para sempre. A palavra sempre significa algo que não há interrupções, algo que não cessa. Enquanto há Vida, há permanência. E depois da morte? De fato, não há tracinhos depois da morte. O que aprendemos nas aulas de Ciências está certo, de algum modo... Cabe cada um acreditar naquilo que convém, de acordo com a sua fé ou crendice ou ainda cultura.

São infindáveis tracinhos que podemos colocar entre as etapas da Vida do ser humano... Temos tantos ideais traçados em tais intervalos, mas que por maioria das vezes ficam ali, parados, imóveis, estagnados. Como diria na letra da música acima: "Como uma idéia que existe na cabeça/E não tem a menor obrigação de acontecer". De fato, a idéia não tem obrigação nenhuma de acontecer. A idéia não existe, o nosso Ser-real não é capaz de colocar em prática um devaneio ou uma fantasia. O que acontece na realidade sempre será algo semelhante e nunca igual ao que foi imaginado em nossas mentes.

Ainda, de acordo com a música: "Pode até parecer fraqueza". Pode sim parecer fraqueza do ser humano não conseguir realizar concretamente as suas idéias. Pode parecer fraqueza nos deixarmos levar pelas propostas da Vida, por conta dos sofrimentos que somos obrigados a enfrentar, e nunca pelas nossas propostas. Pode parecer fraqueza a emergência de 16 personalidades em nosso Ser-real.

Mesmo assim, como nos diz a música: "Caberá só a mim esquecer/E eu vou sobreviver". Mesmo com as fraquezas as quais vivemos, muitas vezes pela não concretização de nossas idéias, cabe a nós esquecer e sobreviver. O Esquecimento-Embaçado é exatamente isso. Quando nos acontece fatos desagradáveis e que fogem do nosso controle de aceitar ou entender, o passo mais importante é esquecer e sobreviver, no caso, esquecer e embaçar. Deixamos aquilo que nos machucou e tentamos focar em novas atividades, com coisas que realmente nos satisfaçam e tampe a válvula de escape do sofrimento. E assim esquecemos. Como não é fácil apenas esquecer, pois precisamos sobreviver com o trauma e aprender com ele a fim de nos tornarmos Seres maduros e convictos, temos que embaçar. Colocar naquele Refratário do Inconsciente... Como? Substituindo valores! Quando focamos em novas atividades que nos satisfazem, o próximo passo é substituir aquilo que nos machucou anteriormente por tal atividade que nos dá prazer e, consequentemente, no livra de algum modo de encarar o sofrimento, o trauma todos os dias. É como quebrar um vaso de flores e depois passar cola para restruturá-lo. Não ficou igual, sempre haverá uma deformidade e outra na louça do vaso... Mas a cola conseguiu juntar os cacos e deixá-los estruturados novamente, de pé. O mesmo ocorre conosco, colocar num refratário do inconsciente o que nos feriu para conseguirmos seguir a nossa estrada da Vida. E assim tentar embaçar ao máximo os ressentimentos provenientes desta dor que passamos.

A jovem Sybil deixou emergir 16 personalidades, a fim de sobreviver. Foi fraqueza de sua parte? Não... Como é fantástico a construção de novas personalidades para, de alguma forma, bloquear a saída do sofrimento! Infelizmente isto causou alguns danos à Sybil... E, outro infelizmente, este bloqueio do sofrimento apenas contribuiu para que sofresse mais, pois seus traumas do passado ficaram cada vez mais evidentes durante as análises com a Dra. Wilbur, através da emergência de suas diversas personalidades. E isso contirbuia para que Sybil se privasse de sobreviver e de viver.

Mesmo por tudo, Sybil demonstrou que durante o seu sofrimento, ela foi forte... A fraqueza não foi capaz de vencê-la. Conseguiu conviver para sempre, sim, com tudo aquilo que a fez sofrer e, doravante, de forma consciente, o que é mais fantástico ainda... E como ela foi capaz de fazer isso? Vejam o filme (ou leiam o livro) e entenderão.

Desta forma, de acordo com a frase bíblica: "Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte." Antes que venha a fraqueza, somos capazes de demonstrar a mais onipotente de nossas forças. Somos capazes de fazer jorrar todo o sofrimento e nos dedicar às coisas que realmente nos fazem bem. E se vier a fraqueza... Que sejamos fortes até em meio a ela. E, outro, como? Usando o sofrimento a favor disso, usando os nosso traumas passados, usando o nosso Esquecimento-Embaçado... Assim seremos capazes de encontrar forças até na fraqueza. Existe uma "Sybil" em cada um de nós.

Sybil... Foi ela mesma. Para o seu sempre.

(In) Blurry Oblivion - em Esquecimento-Embaçado, até a próxima.


Considerações finais:

* Agradeço imensamente ao meu caríssimo amigo Renato Hemesath por ter me indicado o livro e o filme Sybil. Não consigo descrever o quanto este filme foi crucial em muitas de minhas idéias que estavam ainda obscuras quando ao sofrimento psíquico, e agora tenho a mais plena convicção do que é o sofrer e que ninguém está isento de sofrer. E nem muito menos de ter 16 personalidades... Acredito fielmente. E, Renato, que tal fazer uma resenha sofre o filme Sybil? Apenas uma "idéia".
** Infelizmente (ou para alguns não) talvez eu não consiga mais atualizar este blog com a frequência de 1 vez por mês - é, nem isso. Culpa do tal tempo, "mano velho". São as novas propostas Vitais prazerosas e sofridas, ao mesmo tempo. O psicanalista inglês Winnicott nos explica melhor sobre isso, em sua expansão da Vida pela poética: a luta pelos nossos desejos e anseios. E assim sigo em frente, mesmo com o sofrimento... Pois quando estou fraca, me sinto mais forte.


3 comentários:

João Paulo, vulgo zeh verde disse...

Evy Mith... inacreditavel a estoria desse filme... estou louco pra ver... fico feliz pelo meu autismo ser normal... hehe... na verdade tenho mta força no meu mundo... coisa q é complicado externalizar... as pessoas nao entendem a gente... sei la... é isso aehs... hehe... acho q to pensando mto... seus textos fazem ate um burro como eu ficar mais inteligente... pois somos obrigados a entrar em nos msm com o toque das suas palavras profundas... vc é demais moça... adoro-te... bjoks... ;)

Renato Hemesath disse...

Olá caríssima e querida Évelyn!

Ah brilhante o teu texto! muitas coisas a se comentar.

Adorei ler teu e-mail, fico verdadeiramente feliz com as realizações nobres na tua vida! espero que este ano possa conceder-lhe momentos únicos seguidos de suas ternas lembranças. E estou torcendo para que tudo dê certo em Julho!!! \o/

Fico feliz que tenhas gostado do filme. És realmente maravilhoso! foi a história que mais me marcou no ano passado. Achei interessante a sincronicidade da tua frase: "Existe uma "Sybil" em cada um de nós.". Eu escrevi algo muito similar em meu caderno, ao dizer que existe uma Vicky dentro de cada um, podemos, portanto, descobri-la.

No filme de 2007 a Vicky não possui tanto destaque quanto no filme de 1976, e no livro, evidentemente. Na realidade, gostei deste remake, mas devo admitir que ele tem alguns problemas, bem, já admiti outras vezes escrevendo alguns comentário dele no filmow: http://filmow.com/sybil-t10917/

Quando puderes, assista a versão original, vais ficar encantada... principalmente com a atriz que faz a Sybil, tem três horas de duração e foi uma versão também feita exclusivamente para TV - o que me deixou intrigado, pela qualidade do material.
E ah. . . pensei em escrever uma resenha do filme para o CF, mas não sei se prosseguiria, são muitos detalhes que eu acho que escapariam se organizados nos moldes dos textos que publico, mas poderia, por outor lado, escrever uma resenha destinados àqueles que conheceram o livro/filme. ;)

E como muito bem colocado por ti: Sybil era forte, e nós também podemos ser. Ela venceu a si mesmo e ao medo de parecer ridícula aos olhos do mundo, ela aprendeu a odiar e descobriu o seu mais verdadeiro dom: ela mesma.
É preciso coragem para que possamos nos sentir reais, tornarmo-nos reais, de maneira que é especial encontrarmos pessoas que nos dão indicativos de que estamos no caminho certo!

Tudo de bom prá ti!
Até breve! beijos

Renato Hemesath disse...

Oi caríssima! como vão todas as coisas por aí?

Ah várias coisas a comentar contigo. desculpe-me pelas semanas em off, estou me adaptando a modernidade de voltar a ter vida funcional antes das 14h do dia, hahaha. Tudo isto para logo termos aquela semana extremamente desnecessária, mas enfim, este ano terei aula na 4ªf, caso inédito.

Assisti We need to talk about Kevin. Fabuloso! tinha em mente que tratava-se realmente de um trabalho forte e imprescindível para os tempos atuais. É curioso pensar como algumas respostas "prontas" não dão conta de explicar o que ali aconteceu, o que justifica mais uma vez que nossa função abarca a necessidade de contrução de vínculos, saberes, opiniões, enfim.

Espero que tudo esteja ótimo ai no Estágio. As aulas aqui começaram bem, algumas surpresas boas que logo comentarei contigo.
Atualize o blog assim que puder!

Uma linda tarde ♥
Tudo de bom prá ti! Beijos